A Caçada
Ferioso, o Sineiro fez má catadura
"Só hoje dizes coisa tão mofina?
Escolheste falar em muito má altura,
Pois temos o Snark ao dobrar da esquina.
"Sentiremos por ti uma dor bem sentida,
Se funesto destino te levar;
Devias, porém, ter-nos contado à partida
O temor que te dá tal desmaiar.
"Escolheste uma altura má para falar,
Julgo que já o tinha assinalado."
E o chamado "Ei!" pôs-se a suspirar:
"Eu contei tudo mal tinha embarcado.
"Pois chamai-me assassino ou cabeça no ar
(Haverá quem não tenha uma fraqueza?),
Agora, fingidor é que não me podeis chamar,
Que um crime tal é mal que não me pesa.
"Falei-vos em hebreu, falei-vos em grego,
Falei em alemão e holandês;
Só me esqueci de todo (é pena, não o nego)
Que somente sabeis falar inglês.
"Que triste!" - disse o homem do sino, a cara
Mais escura à medida que ia ouvindo.
- "Como a situação , porém, ficou clara,
É tolo perder tempo discutindo.
"O fim do meu discurso" - disse num grito -,
"Ouvi-lo-eis se tal me apetecer.
Mas o Snark está perto, de novo repito
E caçá-lo já é nosso dever.
"Armai-vos de dedais, armai-vos de cuidado,
E procurai, com garfos e esperança
Matá-lo com acções de algum supermercado
E, com riso e sabão, ganhai-lhe a confiança.
"Pois o Snark é um ser muito estranho e, olhai,
Não se caça do modo mais vulgar.
Fazei o que souberdes, o resto inventai,
Que hoje tudo, mas tudo, é de tentar.
"De vós a Pátria espera...Bem, mas não prossigo:
Pomposa embora, a fórmula é banal
tendes que começar a preparar comigo
A luta temerosa e desigual."
O Banqueiro endossou logo um cheque cruzado
E as pratas trocou por notas novas.
O Padeiro compôs patilha e penteado
E a roupa escovou com sete escovas.
Amolava uma pá o Moço de Recados
Revezando-se à mó com o Notário.
Nem os via o Castor preparar-se apressados,
Que a renda o cegava ao Mundo vário,
Embora o Advogado, em pomposa parlenda,
Falando-lhe ao orgulho, até, em vão,
Citasse muitos casos provando que a renda
É, face a certas leis, grave infracção.
Febrilmente agitado, o Chapeleiro quis
Dar novo arranjo à frente da coberta,
Enquanto o Bilharista traçava com giz
Uns riscos no nariz com mão incerta.
O Talhante, nervoso, vestiu elegante
Gola de tufos e luvas amarelas.
Medroso como quem vai a um restaurante,
O Sineiro atacava tais "balelas".
"Apresenta-mo, vá lá!" - o Talhante disse -,
"Se algum dia calhar de estar à mão".
Responde o capitão, cheio de matreirice:
"Só se estiver o tempo de feição".
O Castor, galhufante, pulou de contente,
Vendo tal tibieza no Talhante.
E o Padeiro, até, tão pouco inteligente,
Lá conseguiu piscar um breve instante.
"Faz-te homem, mas é!" - disse o Sineiro, zangado,
Vendo o Talhante entrar de soluçar.
"Se virmos o Jabjab, esse bicho aluado.
Toda a força será puco para caçar."



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Fernando Pessoa
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